Point da Psicanálise – por Profª Dra. Cléo Palácio
Um espaço de pausa, reflexão e reencontro consigo. Aqui, a Psicanálise
& Neurociências ganha voz viva, coração pulsante e linguagem acessível.
Este é o Point da Psicanálise, o lugar onde teoria e experiência se encontram,
e o saber científico se torna também encontro humano. Texto adaptado e
comentado por Profª Dra. Cléo Palácio – CMP Palácio Desenvolvimento Humano,
Educacional e Profissional.
CANSAÇO FÍSICO E CANSAÇO MENTAL: QUANDO
O CORPO PEDE PAUSA E QUANDO O PSIQUISMO PEDE ELABORAÇÃO
Uma leitura
psicanalítica e neurocientífica sobre fadiga, estresse, repetição e reorganização
emocional
“Estou cansado.”
A frase parece simples.
Mas, clinicamente, ela exige uma pergunta essencial: que tipo de cansaço está
em jogo?
Nem toda exaustão nasce
do corpo. Nem toda fadiga se resolve com sono. Há o cansaço muscular,
metabólico, restaurável com repouso. E há o cansaço psíquico — mais silencioso,
mais persistente, muitas vezes incompreendido. Psicanálise e Neurociência,
quando articuladas com rigor, ajudam a diferenciar esses estados e a
compreender por que, em certos momentos, dormir não basta.
1.
O cansaço físico: fadiga biológica e recuperação orgânica
Do ponto de vista
neurobiológico, o cansaço físico é uma resposta adaptativa. Após esforço
muscular, privação de sono ou gasto energético intenso, o organismo sinaliza a
necessidade de recuperação. Há alterações metabólicas, aumento de marcadores
inflamatórios e ativação do eixo hipotálamo-hipófise-adrenal.
Robert Sapolsky, em
Behave: The Biology of Humans at Our Best and Worst, descreve como o estresse
agudo é funcional: mobiliza energia, aumenta vigilância e prepara o corpo para
ação. Quando o estímulo termina, o sistema deve retornar ao equilíbrio. O
descanso adequado restaura o funcionamento muscular e hormonal.
Quando o cansaço é
predominantemente físico:
• o sono
reparador melhora significativamente o estado geral;
• há
sensação clara de esforço corporal recente;
• a
recuperação é proporcional à pausa.
Nesse caso, o corpo
pede tempo. E o tempo responde.
2.
O cansaço mental: sobrecarga neural e desgaste do Eu
O cansaço mental é
diferente. Ele pode persistir mesmo após horas de sono. Envolve dificuldade de
concentração, irritabilidade, sensação de peso interno e perda de motivação.
Aqui, não falamos apenas de músculo fatigado, mas de circuitos neurais em
sobrecarga.
António Damásio, em O
erro de Descartes, demonstra que emoção e cognição são inseparáveis. Estados
emocionais prolongados mantêm o cérebro em ativação contínua. A amígdala
permanece vigilante; o córtex pré-frontal, responsável por planejamento e regulação,
perde eficiência. O resultado é sensação de exaustão mesmo na ausência de
esforço físico.
A plasticidade neural
explica a manutenção desse quadro. Eric Kandel demonstrou que o cérebro aprende
por repetição: conexões sinápticas se fortalecem quando ativadas repetidamente.
Se o sujeito permanece semanas em ruminação, autocobrança ou conflito,
consolida esse padrão de hiperativação. O cérebro “aprende” o estresse.
3.
Repetição psíquica e gasto de energia mental
A psicanálise
acrescenta uma dimensão decisiva. Sigmund Freud, em Além do princípio do
prazer, descreve a compulsão à repetição: aquilo que não é simbolizado retorna.
O aparelho psíquico gasta energia tentando manter certos conteúdos fora da
consciência. O recalque não é gratuito; ele consome.
O cansaço mental pode
ser entendido como desgaste do Eu diante de conflitos não elaborados. A energia
psíquica não circula; fica aprisionada em tentativas de controle, defesa e
repetição. O sujeito sente-se exausto sem compreender exatamente por quê.
Não se trata apenas de
“muita tarefa”. Trata-se de excesso de tensão interna.
4. O papel do sistema nervoso autônomo e
da regulação vagal
A neurociência
contemporânea amplia essa compreensão ao observar o funcionamento do sistema
nervoso autônomo. Stephen Porges, na The Polyvagal Theory, demonstra que
estados prolongados de alerta mantêm o organismo em modo defensivo. Quando o
sistema simpático permanece ativado, há dificuldade de relaxamento profundo.
O corpo pode estar
deitado, mas o sistema nervoso não está em repouso.
Respiração superficial,
tensão muscular e pensamento acelerado indicam que o organismo não conseguiu
transitar para o estado parassimpático de segurança. O cansaço mental, nesse
contexto, é consequência de uma vigília prolongada.
5.
Rede neural em modo padrão e ruminação
Outro elemento
relevante é a chamada “rede de modo padrão” (default mode network), associada à
autorreferência e à ruminação. Estudos indicam que sua hiperativação está
relacionada a estados de preocupação persistente.
Joseph LeDoux, em The
Emotional Brain, demonstra como circuitos emocionais podem assumir o comando
quando a regulação pré-frontal se enfraquece. A mente retorna repetidamente aos
mesmos temas, reforçando o desgaste.
O sujeito não está
apenas cansado. Ele está preso em um circuito de repetição neural e psíquica.
6.
Burnout, exaustão emocional e perda de sentido
Quando o cansaço mental
se prolonga, pode surgir a exaustão emocional, frequentemente associada ao
burnout. Aqui, não há apenas fadiga, mas perda de sentido. A tarefa deixa de
ser fonte de realização e torna-se peso constante.
Do ponto de vista
psicanalítico, isso pode indicar ruptura entre desejo e ação. Do ponto de vista
neurobiológico, envolve depleção motivacional e alteração em circuitos
dopaminérgicos.
Dormir não resolve
quando o problema é falta de elaboração e desalinhamento interno.
7.
Como diferenciar clinicamente?
Predominância física:
• melhora
com repouso;
• dor
muscular localizada;
• recuperação
proporcional ao descanso.
Predominância mental:
• sono não
restaura completamente;
• dificuldade
de concentração;
• irritabilidade
persistente;
• sensação
de esvaziamento ou peso interno;
• ruminação
constante.
Na prática, os dois
podem coexistir. Mas reconhecer a predominância orienta o cuidado.
8.
O que realmente reabastece o cansaço mental?
Se o cansaço é físico,
o corpo pede pausa.
Se o cansaço é
psíquico, o psiquismo pede elaboração.
A neurociência aponta
que práticas de regulação, respiração lenta, pausas conscientes, redução de
estímulos, ajudam a modular o sistema nervoso. A psicanálise indica que
simbolizar conflitos reduz o gasto energético do recalque.
Não é apenas descansar.
É reorganizar.
Conclusão
O cansaço físico é um pedido
do corpo.
O cansaço mental é um
pedido de sentido.
Psicanálise e
Neurociência convergem ao mostrar que a exaustão psíquica não é sinal de
fraqueza, mas de sobrecarga emocional e neural. Reconhecer essa diferença é o
primeiro passo para um cuidado mais preciso.
Nem todo descanso é
deitar. Às vezes, descansar é compreender.
Referências
bibliográficas
DAMÁSIO, António. O erro de Descartes.
São Paulo: Companhia das Letras, 1996.
FREUD, Sigmund. Além do princípio do
prazer. Rio de Janeiro: Imago, 1996.
KANDEL, Eric. In Search of Memory. New
York: W. W. Norton, 2006.
LEDOUX, Joseph. The Emotional Brain. New
York: Simon & Schuster, 1996.
PORGES, Stephen. The Polyvagal Theory.
New York: W. W. Norton, 2011.
SAPOLSKY, Robert. Behave: The Biology of
Humans at Our Best and Worst. New York: Penguin, 2017.
Nota
Ética e Autoral — CMP Palácio | Point da Psicanálise
Conteúdo elaborado pela
Profª Dra. Cléo Palácio, com base em referenciais científicos clássicos da
Psicanálise e da Neurociência. Texto de finalidade educativa e cultural,
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