Point da Psicanálise – por Profª Dra. Cléo Palácio
Um espaço de pausa, reflexão e reencontro consigo. Aqui, a Psicanálise
& Neurociências ganha voz viva, coração pulsante e linguagem acessível.
Este é o Point da Psicanálise, o lugar onde teoria e experiência se encontram,
e o saber científico se torna também encontro humano. Texto adaptado e
comentado por Profª Dra. Cléo Palácio – CMP Palácio Desenvolvimento Humano,
Educacional e Profissional.
LIMPAR
PENSAMENTOS NEGATIVOS NÃO É MISTICISMO. É NEUROCIÊNCIA E PSICANÁLISE EM AÇÃO.
Durante muito tempo, falar sobre
pensamentos negativos foi associado a discursos superficiais, promessas mágicas
ou ideias místicas sem fundamento científico. No entanto, hoje a ciência do
cérebro e a psicanálise demonstram algo muito claro: pensamentos repetidos
moldam o funcionamento mental, emocional e comportamental do sujeito.
Não se trata de “pensar positivo”
de forma ingênua.
Trata-se de compreender como o cérebro aprende, registra, repete e
automatiza padrões internos, e como o sujeito pode intervir conscientemente
nesse processo.
A ciência chama isso de padrão
neural. A psicanálise chama de repetição psíquica. Na vida
cotidiana, isso aparece como costume emocional.
O cérebro
grava o que se repete
Do ponto de vista da
neurociência, o cérebro não diferencia, a princípio, pensamentos “bons” ou
“ruins”. Ele registra frequência, repetição e intensidade emocional.
Donald Hebb, um dos pais da
neurociência moderna, formulou um princípio fundamental:
“Neurônios que disparam juntos,
conectam-se entre si.”
Isso significa que:
·
Pensamentos repetidos ativam sempre os mesmos
circuitos neurais;
·
Emoções associadas reforçam essas conexões;
·
Com o tempo, o cérebro passa a funcionar em modo
automático.
Antonio Damásio demonstra que
pensamentos carregados de emoção criam marcadores somáticos, ou seja,
registros corporais e emocionais que orientam nossas decisões futuras, muitas
vezes sem que percebamos.
Assim, quando uma pessoa pensa
todos os dias da mesma forma, reage da mesma maneira e sente as mesmas emoções,
o cérebro entende: “Este é o caminho preferencial.”
Padrões
mentais não são destino. São aprendizado.
A neurociência contemporânea é
clara: o cérebro é plástico.
A plasticidade neural,
estudada por autores como Eric Kandel e Norman Doidge, mostra que o cérebro se
reorganiza ao longo da vida, criando novas conexões sempre que novas
experiências, pensamentos e comportamentos são introduzidos de forma
consistente.
Isso significa que:
·
nenhum padrão é definitivo;
·
nenhum hábito emocional é imutável;
·
nenhum funcionamento psíquico está condenado à
repetição eterna.
Mas a mudança não acontece por
força de vontade isolada.
Ela acontece por repetição consciente de novos padrões.
O que a psicanálise
chama de repetição
Muito antes da neurociência falar
em padrões neurais, Freud já descrevia a compulsão à repetição.
Em Recordar, Repetir e
Elaborar, Freud mostra que o sujeito tende a repetir aquilo que não foi
simbolizado, elaborado ou compreendido. O que não vira palavra, vira ato. O que
não é consciente, governa.
A repetição não é teimosia. É
tentativa do psiquismo de dar sentido ao que ainda dói.
Autores como Lacan aprofundam
essa ideia ao mostrar que o sujeito se organiza em torno de significantes que
se repetem, moldando sua forma de pensar, sentir e se posicionar no mundo.
Assim, pensamentos negativos
recorrentes muitas vezes não são apenas hábitos cognitivos, mas expressões
de conflitos internos, angústias não elaboradas e histórias emocionais
inscritas no inconsciente.
Mudar o
foco muda o cérebro , mas também muda o sujeito
Quando uma pessoa:
·
respira de forma mais lenta;
·
interrompe um pensamento automático;
·
escolhe uma resposta diferente;
·
observa sua reação antes de agir;
ela não está apenas “pensando
diferente”. Ela está ativando novos circuitos neurais e, ao mesmo tempo,
criando novas possibilidades simbólicas.
A respiração lenta, por exemplo,
ativa o sistema nervoso parassimpático, reduzindo a hiperativação da amígdala,
área ligada ao medo e à ansiedade, como demonstram estudos de Joseph LeDoux e
Stephen Porges.
Ao mesmo tempo, o córtex
pré-frontal passa a ter maior participação, favorecendo reflexão, escolha e
regulação emocional.
Na psicanálise, esse momento é
fundamental: é quando o sujeito deixa de agir automaticamente e passa a se
escutar.
Plasticidade
não é milagre. É processo.
A ciência é honesta: não existe
mudança instantânea.
A plasticidade neural exige:
·
repetição;
·
constância;
·
tempo;
·
envolvimento emocional.
Da mesma forma, na psicanálise, a
transformação não vem de conselhos, mas da elaboração progressiva do que antes
se repetia sem sentido.
Por isso, limpar pensamentos
negativos não significa eliminá-los à força, mas compreender, ressignificar
e construir novas vias internas.
Liberdade
não é apagar o passado, é criar novos caminhos
Se a mente tem poder para
adoecer, ela também tem poder para reorganizar.
Quando o sujeito entende que:
·
pensamentos são processos, não verdades absolutas;
·
emoções são respostas aprendidas, não sentenças
definitivas;
·
padrões podem ser transformados;
ele deixa de ser refém da
repetição e passa a participar ativamente da própria história.
A neurociência chama isso de reorganização
neural.A psicanálise chama de elaboração psíquica. Na vida real,
isso se chama liberdade possível.
Considerações
finais
Limpar pensamentos negativos não
é negar a dor, nem impor positividade artificial.É compreender como o cérebro
funciona, como o inconsciente repete e como o sujeito pode, pouco a pouco,
reconstruir sua forma de existir.Onde há consciência, há escolha.Onde há
escuta, há transformação.
Referencias:
BOWLBY, John. Apego e perda: apego. São Paulo:
Martins Fontes, 2002.
DAMÁSIO, António. O erro de Descartes: emoção, razão
e o cérebro humano. São Paulo: Companhia das Letras, 2012.
DOIDGE, Norman. O cérebro que se transforma. Rio de
Janeiro: Record, 2014.
FREUD, Sigmund. Além do princípio do prazer. Rio de
Janeiro: Imago, 1996.
FREUD, Sigmund. Recordar, repetir e elaborar. Rio
de Janeiro: Imago, 1996.
FREUD, Sigmund. Inibições, sintomas e ansiedade.
Rio de Janeiro: Imago, 1996.
FREUD, Sigmund. O ego e o id. Rio de Janeiro:
Imago, 1996.
HEBB, Donald O. The organization of behavior: a
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KANDEL, Eric R. Em busca da memória: o nascimento
de uma nova ciência da mente. São Paulo: Companhia das Letras, 2009.
LACAN, Jacques. Escritos. Rio de Janeiro: Zahar,
1998.
LEDOUX, Joseph. O cérebro emocional. Rio de
Janeiro: Objetiva, 2001.
PANKSEPP, Jaak. Affective neuroscience: the
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1998.
PORGES, Stephen W. A teoria polivagal. São Paulo:
Editora Unesp, 2011.
SIEGEL, Daniel J. Mindsight: a nova ciência da
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SOLMS, Mark. The hidden spring: a journey to the
source of consciousness. New York: W. W. Norton & Company, 2021.
WINNICOTT, Donald W. O ambiente e os processos de
maturação. Porto Alegre: Artmed, 1983.
WINNICOTT, Donald W. O brincar e a realidade. Rio
de Janeiro: Imago, 1975.
Nota Ética e Autoral – CMP
Palácio | Point da Psicanálise
Texto elaborado e adaptado pela Profª
Dra. Cléo Palácio, com base em obras clássicas da Psicanálise e em estudos
contemporâneos da Neurociência, com finalidade educacional, científica e
cultural, em conformidade com a Lei nº 9.610/98 (Direitos Autorais) e a Lei nº
13.709/18 (LGPD). A reprodução parcial é permitida mediante citação da fonte e autoria:
Cléo Palácio – CMP Palácio
Desenvolvimento Humano, Educacional e Profissional.