Point da Psicanálise – por Profª Dra. Cléo Palácio

 

Um espaço de pausa, reflexão e reencontro consigo. Aqui, a Psicanálise & Neurociências ganha voz viva, coração pulsante e linguagem acessível. Este é o Point da Psicanálise, o lugar onde teoria e experiência se encontram, e o saber científico se torna também encontro humano. Texto adaptado e comentado por Profª Dra. Cléo Palácio – CMP Palácio Desenvolvimento Humano, Educacional e Profissional.

 

O QUE É COMPORTAMENTO DISRUPTIVO?

 

Um olhar da psicanálise e da neurociência comportamental

1️ Introdução

Quando o comportamento pede escuta

O termo comportamento disruptivo aparece com frequência em contextos escolares, familiares, clínicos e profissionais. É comum ouvi-lo associado a crianças agitadas, adolescentes opositores ou adultos considerados “difíceis”. No entanto, apesar de amplamente utilizado, poucas pessoas compreendem, de fato, o que esse comportamento significa.

Na clínica, uma lição fundamental se impõe desde Freud: o comportamento não surge do nada. Ele não é aleatório, nem desprovido de sentido. Muitas vezes, trata-se de uma forma de comunicação psíquica, especialmente quando a palavra falha, quando o sujeito não consegue simbolizar aquilo que vive internamente.

Antes de rotular, punir ou silenciar, é preciso escutar.
Porque, na maioria das vezes, o comportamento é o último recurso de expressão de um sofrimento que não encontrou linguagem.

 

2️ O que é comportamento disruptivo?

De maneira simples, o comportamento disruptivo é aquele que rompe o funcionamento esperado de um ambiente, de uma relação ou de uma dinâmica social. Ele quebra ritmos, desafia regras, gera tensão e desconforto.

Pode se manifestar como:

·                 impulsividade excessiva;

·                 explosões emocionais frequentes;

·                 dificuldade em seguir regras e limites;

·                 agitação constante;

·                 oposição intensa;

·                 atitudes aparentemente “sem motivo” ou desproporcionais.

É fundamental afirmar com clareza:

???? comportamento disruptivo não é sinônimo de doença

???? não é falta de caráter;

???? não é ausência de limites, embora muitas vezes seja confundido com isso.

O comportamento disruptivo é um sinal clínico.
E todo sinal pede leitura, não julgamento.

 

3️ O olhar da psicanálise: o comportamento como sintoma

Para a psicanálise, o comportamento é sempre carregado de sentido. Freud nos ensina que o sintoma surge quando há um conflito psíquico que não pôde ser elaborado simbolicamente. Quando a palavra não dá conta, o corpo e o ato falam.

O comportamento disruptivo, nesse sentido, pode ser compreendido como um ato sintomático.

“Quando a palavra falha, o comportamento fala.”

Ele pode indicar:

·                 conflitos inconscientes não elaborados;

·                 angústias intensas que não encontraram espaço de escuta;

·                 experiências emocionais precoces mal simbolizadas;

·                 falhas na constituição do eu e das relações objetais;

·                 dificuldades no manejo da frustração e da perda.

O ato não é o problema em si. Ele é a mensagem.

Autores como Melanie Klein, Winnicott e Bion mostram que, muitas vezes, comportamentos disruptivos estão ligados a vivências precoces de insegurança emocional, falhas ambientais, sentimentos de desamparo e dificuldades na integração psíquica. O sujeito age aquilo que não consegue pensar.

 

4️ Onde o comportamento disruptivo pode aparecer?

O comportamento disruptivo não está restrito a uma fase da vida. Ele pode surgir em diferentes contextos e idades, assumindo formas diversas.

Na infância:

·                 agitação intensa;

·                 agressividade;

·                 dificuldade de permanência;

·                 crises emocionais frequentes;

·                 resistência ao limite.

Na adolescência:

·                 oposição intensa;

·                 impulsividade;

·                 condutas de risco;

·                 explosões emocionais;

·                 dificuldades no laço social.

Na vida adulta:

·                 conflitos relacionais recorrentes;

·                 comportamentos autossabotadores;

·                 dificuldades de regulação emocional;

·                 rupturas frequentes em vínculos afetivos e profissionais.

Na família, na escola e no trabalho:

·                 relações marcadas por tensão;

·                 repetição de conflitos;

·                 dificuldade de adaptação a regras e hierarquias.

Em todos esses casos, o comportamento aponta para algo que precisa ser elaborado, não reprimido.

 

5️ O que NÃO fazer diante do comportamento disruptivo

Algumas respostas, embora comuns, tendem a agravar o sofrimento psíquico:

·                 rotular a pessoa;

·                 punir sem compreender;

·                 tratar o comportamento como “má vontade”;

·                 silenciar ou ignorar o sintoma;

·                 desconsiderar o contexto emocional e relacional.

Essas atitudes reforçam a ruptura do laço, aumentam a angústia e fecham a possibilidade de transformação. Quando o comportamento é silenciado à força, o sofrimento tende a retornar de outras formas.

 

6️ Como a psicanálise contribui no manejo do comportamento disruptivo

A psicanálise oferece algo fundamental: um espaço de escuta onde o comportamento pode se transformar em palavra.

Ela contribui por meio de:

·                 escuta clínica qualificada;

·                 enquadre seguro e ético;

·                 respeito ao tempo psíquico do sujeito;

·                 elaboração simbólica do sofrimento;

·                 compreensão das repetições inconscientes.

Não se trata de corrigir o comportamento, mas de compreender o que ele está tentando dizer. A transformação ocorre quando o sujeito consegue nomear, simbolizar e elaborar aquilo que antes só podia agir.

 

7️ Articulação com a neurociência comportamental

A neurociência comportamental, quando utilizada de forma ética e complementar, pode auxiliar no manejo do comportamento disruptivo, sem reduzir o sujeito a um funcionamento biológico.

Ela contribui com:

·                 estratégias de regulação emocional;

·                 compreensão dos mecanismos neurobiológicos da impulsividade;

·                 desenvolvimento da consciência corporal;

·                 ferramentas de apoio para o cotidiano.

Autores como António Damásio, Jaak Panksepp, Stephen Porges e Daniel Siegel mostram como emoção, corpo e cérebro estão profundamente integrados. A desregulação emocional, muitas vezes presente no comportamento disruptivo, envolve sistemas neuroafetivos que precisam ser compreendidos e cuidados.

???? É essencial destacar: essas estratégias não substituem o processo analítico. Elas acompanham, sustentam e auxiliam o sujeito enquanto a elaboração psíquica acontece.

 

8️ Fechamento

O olhar ético do Instituto CMP Palácio

Trabalhar com comportamento disruptivo exige ética, formação e responsabilidade clínica. Não se trata de eliminar o comportamento, mas de criar condições para que ele possa ser escutado, compreendido e transformado.

No Instituto CMP Palácio, o olhar é sempre humano, ético e comprometido com o cuidado psíquico. Cada comportamento é entendido como uma expressão singular de uma história que merece respeito e escuta.

 

O comportamento disruptivo não é um inimigo a ser combatido,
mas um sinal de que algo precisa ser escutado. Onde há escuta, há possibilidade de transformação.

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

 

BION, Wilfred R. Aprender com a experiência. Rio de Janeiro: Imago, 1991.

 

BOWLBY, John. Apego e perda: apego. São Paulo: Martins Fontes, 2002.

 

DAMÁSIO, António. O erro de Descartes: emoção, razão e o cérebro humano. São Paulo: Companhia das Letras, 2012.

 

FREUD, Sigmund. Além do princípio do prazer. Rio de Janeiro: Imago, 1996.

 

FREUD, Sigmund. Inibições, sintomas e ansiedade. Rio de Janeiro: Imago, 1996.

FREUD, Sigmund. O ego e o id. Rio de Janeiro: Imago, 1996.

 

FREUD, Sigmund. Recordar, repetir e elaborar. Rio de Janeiro: Imago, 1996.

 

KLEIN, Melanie. Inveja e gratidão e outros trabalhos. Rio de Janeiro: Imago, 1991.

 

KLEIN, Melanie. O sentimento de solidão. Rio de Janeiro: Imago, 1986.

 

KLEIN, Melanie. Psicanálise da criança. Rio de Janeiro: Imago, 1997.

 

PANKSEPP, Jaak. Affective neuroscience: the foundations of human and animal emotions. Oxford: Oxford University Press, 1998.

 

PORGES, Stephen W. A teoria polivagal. São Paulo: Editora Unesp, 2011.

 

SIEGEL, Daniel J. Mindsight: a nova ciência da transformação pessoal. São Paulo: Editora Cultrix, 2010.

 

WINNICOTT, Donald W. O ambiente e os processos de maturação. Porto Alegre: Artmed, 1983.

 

WINNICOTT, Donald W. Privação e delinquência. São Paulo: Martins Fontes, 2005.

 

Nota Ética e Autoral – CMP Palácio | Point da Psicanálise

 

Texto elaborado e adaptado pela Profª Dra. Cléo Palácio, com base em fontes teóricas clássicas da Psicanálise, Neurociência e Ciências Humanas, de domínio público e acadêmicas. Conteúdo com finalidade educacional, científica e cultural, em conformidade com a Lei 9.610/98 (Direitos Autorais) e a Lei 13.709/18 (LGPD). A reprodução parcial é permitida mediante citação da fonte e autoria: Profª Dra. Cléo Palácio – CMP Palácio Desenvolvimento Humano, Educacional e Profissional.