Point da Psicanálise – por Profª Dra. Cléo Palácio
Um espaço de pausa, reflexão e reencontro consigo. Aqui, a Psicanálise
& Neurociências ganha voz viva, coração pulsante e linguagem acessível.
Este é o Point da Psicanálise, o lugar onde teoria e experiência se encontram,
e o saber científico se torna também encontro humano. Texto adaptado e
comentado por Profª Dra. Cléo Palácio – CMP Palácio Desenvolvimento Humano,
Educacional e Profissional.
POR
QUE TEMOS PESADELOS?
Um olhar da psicanálise e da neurociência sobre os
sonhos de angústia
Os
pesadelos fazem parte da experiência humana desde a infância. Em algum momento
da vida, quase todas as pessoas já acordaram com o coração acelerado, o corpo em
alerta e uma sensação de medo que parecia real demais para ser “apenas um
sonho”.
Mas
afinal, por que temos pesadelos?Eles são sinais de algo errado?São mensagens do
inconsciente? Ou reações biológicas do cérebro?
A
resposta não está em um único lugar. Ela surge no encontro entre neurociência,
psicanálise e experiência emocional.
1.
O que são pesadelos?
Pesadelos
são sonhos marcados por conteúdos intensamente angustiantes, capazes de
provocar medo, pânico, tristeza ou sensação de ameaça iminente, levando muitas
vezes ao despertar abrupto.
Diferente
de sonhos comuns, os pesadelos:
·
ativam
emoções fortes;
·
geram
respostas físicas (taquicardia, sudorese, tensão);
·
permanecem
vívidos após o despertar;
·
deixam
resíduos emocionais ao longo do dia.
Eles
não são aleatórios. Eles têm função.
2.
O que acontece no cérebro durante o sono?
Durante
o sono, o cérebro não “desliga”. Pelo contrário: ele entra em estados
altamente ativos, especialmente durante a fase REM (Rapid Eye Movement)
— momento em que os sonhos mais intensos acontecem.
Na
fase REM:
·
o
cérebro emocional está altamente ativo;
·
áreas
ligadas à lógica e ao controle racional reduzem sua atividade;
·
memórias,
emoções e experiências recentes são reorganizadas.
Segundo
a neurociência, o sono REM é fundamental para:
·
consolidação
da memória;
·
regulação
emocional;
·
integração
de experiências vividas.
É
nesse cenário que os pesadelos emergem.
3.
O papel da amígdala: o centro do medo em ação
A
amígdala cerebral é uma estrutura localizada no sistema límbico,
responsável por:
·
detectar
perigo;
·
processar
medo;
·
responder
a ameaças;
·
armazenar
memórias emocionais.
Durante
o sono REM, a amígdala:
·
fica
hiperativada;
·
reage
como se a ameaça fosse real;
·
dispara
respostas emocionais intensas.
Por
isso, no pesadelo:
➡
o corpo reage como se o perigo estivesse acontecendo de verdade
➡
o medo não é simbólico para o cérebro, é vivido como real
Autores
como Joseph LeDoux e Antonio Damásio demonstram que emoções não
dependem apenas da razão, mas de circuitos cerebrais automáticos, profundamente
ligados à sobrevivência.
4.
Por que os pesadelos surgem?
Do
ponto de vista neurocientífico, os pesadelos costumam surgir quando há:
·
estresse
intenso;
·
sobrecarga
emocional;
·
experiências
traumáticas;
·
ansiedade
crônica;
·
privação
de sono;
·
alterações
nos ciclos do sono.
O
cérebro tenta processar emoções que não foram elaboradas em vigília.
O
pesadelo é uma , ainda que dolorosa, de organização emocional.
5.
O olhar da psicanálise: quando o inconsciente sonha a angústia
Para
a psicanálise, o sonho nunca é aleatório. Desde Freud, compreende-se que o
sonho é uma via de expressão do inconsciente. Nos pesadelos, algo
específico acontece: ???? o conteúdo angustiante não consegue ser
disfarçado
???? a censura psíquica falha
???? a angústia aparece de forma crua
Freud
afirmava que a angústia no sonho surge quando o desejo, o medo ou o conflito
não conseguem ser simbolizados.
Em
outras palavras: quando a palavra falha, o sonho grita.
6.
Pesadelos não são previsões, são traduções psíquicas
É
fundamental esclarecer:
❌
pesadelos não são presságios
❌
não são mensagens místicas
❌
não indicam “algo ruim vai acontecer”
Eles
são traduções simbólicas de conflitos internos, medos, traumas, culpas,
perdas ou vivências emocionais não elaboradas.
Autores
como Melanie Klein e Bion mostram que, quando o psiquismo não
consegue transformar emoções brutas em pensamento, elas retornam em forma de
angústia.
O
pesadelo é essa tentativa falha de simbolização.
7.
Sonhos sem sentido também vêm do inconsciente
Mesmo
sonhos “sem pé nem cabeça” não são vazios. Eles podem parecer desconexos
porque:
·
o
inconsciente não funciona de forma lógica;
·
ele
se organiza por imagens, afetos e associações;
·
o
cérebro mistura memórias, emoções e restos do dia.
O
sentido do sonho não está na imagem literal, mas no afeto que ele carrega.
8.
Quando os pesadelos pedem escuta terapêutica
É
importante buscar ajuda quando os pesadelos:
·
são
frequentes;
·
interrompem
o sono;
·
geram
medo de dormir;
·
estão
associados a traumas;
·
provocam
sofrimento emocional persistente.
Na
clínica psicanalítica, o pesadelo não é interpretado de forma genérica.
Ele é escutado dentro da história singular do sujeito.
Não
se trata de decifrar símbolos prontos, mas de dar palavra ao que está sem
forma.
9.
Psicanálise e neurociência: um diálogo necessário
A
neurociência explica como o cérebro reage.
A psicanálise escuta o que essa reação quer dizer.
Juntas,
elas mostram que:
·
o
pesadelo não é falha;
·
é
tentativa de elaboração;
·
é
pedido de escuta;
·
é
sinal de que algo precisa ser cuidado.
Considerações
finais
Os
pesadelos não são inimigos do sono. Eles são mensageiros do psiquismo.
Quando
compreendidos e acolhidos, deixam de ser apenas medo e passam a ser pontes
para o cuidado emocional.
Dormir
bem não é apenas descansar o corpo.
É também permitir que a mente encontre caminhos mais seguros para elaborar sua
própria história.
REFERÊNCIAS
DAMÁSIO,
Antonio. O erro de Descartes: emoção, razão e o cérebro humano. São
Paulo: Companhia das Letras, 2012.
FREUD,
Sigmund. A interpretação dos sonhos. Rio de Janeiro: Imago, 1996.
KLEIN,
Melanie. Inveja e gratidão e outros trabalhos. Rio de Janeiro: Imago,
1991.
LEDOUX,
Joseph. The emotional brain. New York: Simon & Schuster, 1996.
PANKSEPP,
Jaak. Affective neuroscience. Oxford: Oxford University Press, 1998.
SIEGEL,
Daniel J. Mindsight. São Paulo: Cultrix, 2010.
VAN
DER KOLK, Bessel. The body keeps the score. New York: Viking, 2014.
NOTA
ÉTICA E AUTORAL – CMP Palácio | Point da Psicanálise
Texto
elaborado e adaptado pela Profª Dra. Cléo Palácio, com base em referências
científicas clássicas e contemporâneas da psicanálise e da neurociência.
Conteúdo de caráter educativo, científico e cultural, em conformidade com a Lei
9.610/98 (Direitos Autorais) e a Lei 13.709/18 (LGPD). A reprodução parcial é
permitida mediante citação da fonte e autoria.