Point da
Psicanálise – por Profª Dra. Cléo Palácio
Um espaço de pausa, reflexão e reencontro consigo. Aqui, a Psicanálise
& Neurociências ganha voz viva, coração pulsante e linguagem acessível.
Este é o Point da Psicanálise, o lugar onde teoria e experiência se encontram,
e o saber científico se torna também encontro humano. Texto adaptado e
comentado por Profª Dra. Cléo Palácio – CMP Palácio Desenvolvimento Humano,
Educacional e Profissional.
ANSIEDADE NÃO É FRESCURA: BASES
NEUROPSICOLÓGICAS E PSICOSSOMÁTICAS DO TRANSTORNO DE ANSIEDADE
O transtorno de ansiedade é
classificado como um transtorno mental, porém seus efeitos ultrapassam
amplamente o campo psíquico, manifestando-se de maneira intensa no corpo. Essa
relação entre mente e corpo, amplamente estudada pela Psicologia, Psicanálise e
Neurociência, ajuda a compreender por que a ansiedade não pode ser reduzida a
um fenômeno subjetivo ou a uma simples “questão emocional”.
Segundo o DSM-5-TR (APA,
2023), os transtornos de ansiedade envolvem respostas excessivas de medo e
apreensão, acompanhadas de alterações comportamentais, cognitivas e
fisiológicas. Essas respostas não dependem necessariamente da presença de um
perigo real, mas da percepção subjetiva de ameaça, construída
internamente pelo indivíduo.
A
amplificação cognitiva da ameaça
Do ponto de vista cognitivo e
neuropsicológico, a mente ansiosa opera como um sistema de vigilância
hiperativado. Beck e Clark (2010) explicam que pessoas com transtorno de
ansiedade apresentam um viés atencional voltado para o perigo, interpretando
estímulos neutros ou ambíguos como ameaçadores. Esse mecanismo funciona como
uma amplificação interna do risco, mesmo na ausência de perigo concreto.
Essa interpretação distorcida
ativa estruturas cerebrais responsáveis pela sobrevivência, especialmente a amígdala,
que atua como um detector de ameaças (LEDOUX, 2014). Quando a amígdala
identifica perigo, real ou percebido, ela envia sinais imediatos ao corpo, preparando-o
para reagir.
O sistema
de luta ou fuga e a resposta fisiológica
A ativação da amígdala
desencadeia o chamado sistema de luta ou fuga, mediado pelo sistema
nervoso simpático. Nesse processo, ocorre a liberação de hormônios do estresse,
principalmente adrenalina e cortisol (GUYTON; HALL, 2021).
A adrenalina provoca aceleração
dos batimentos cardíacos, aumento da frequência respiratória e maior tensão
muscular. Esses efeitos explicam sintomas comuns da ansiedade, como
palpitações, sensação de falta de ar, tontura, tremores, dores musculares e
cefaleia tensional.
No sistema gastrointestinal, a
adrenalina reduz temporariamente o funcionamento digestivo, o que pode gerar
refluxo, azia, náuseas, indigestão e a sensação de “bolo na garganta”. Esses
sintomas são frequentemente confundidos com doenças orgânicas, quando, na
verdade, possuem base neurofisiológica relacionada à ansiedade.
O impacto
do cortisol no organismo
O cortisol, por sua vez, quando
liberado de forma prolongada, compromete o equilíbrio do organismo. Estudos
mostram que níveis elevados e constantes desse hormônio estão associados à
diminuição da imunidade, alterações do sono, aumento de processos inflamatórios
e maior vulnerabilidade a alergias e distúrbios psicossomáticos (SAPOLSKY,
2004).
Além disso, o excesso de cortisol
afeta a qualidade do sono, dificultando o descanso reparador e intensificando o
cansaço físico e mental, o que contribui para a manutenção do quadro ansioso.
Ansiedade,
corpo e sofrimento psíquico
Do ponto de vista psicossomático,
autores como McDougall (1991) e Alexander (1989) destacam que o corpo muitas
vezes expressa aquilo que não encontra vias simbólicas suficientes para
elaboração psíquica. Assim, sintomas físicos não representam fragilidade
emocional, mas uma forma legítima de manifestação do sofrimento.
Quando esses sinais corporais se
intensificam, é comum que o indivíduo desenvolva medo das próprias sensações, o
que pode levar a crises de pânico e a um estado de hipervigilância constante,
ampliando ainda mais o sofrimento.
Ansiedade
não é frescura: é um transtorno que exige cuidado
Reduzir o transtorno de ansiedade
a “exagero” ou “fraqueza” revela desconhecimento científico e falta de empatia.
A literatura é clara ao demonstrar que a ansiedade envolve alterações reais no
funcionamento cerebral, hormonal e fisiológico.
Reconhecer a ansiedade como um
transtorno legítimo é fundamental para promover acolhimento, reduzir estigmas e
incentivar a busca por acompanhamento profissional adequado. O cuidado com a
saúde mental não é um luxo, mas uma necessidade humana básica.
Referências bibliográficas
AMERICAN PSYCHIATRIC ASSOCIATION. DSM-5-TR:
Manual diagnóstico e estatístico de transtornos mentais. 5. ed. rev. Porto
Alegre: Artmed, 2023.
ALEXANDER, F. G. Medicina psicossomática.
Porto Alegre: Artes Médicas, 1989.
BECK, A. T.; CLARK, D. A. Ansiedade e
transtornos de ansiedade: uma abordagem cognitiva. Porto Alegre: Artmed,
2010.
GUYTON, A. C.; HALL, J. E. Tratado de fisiologia
médica. 14. ed. Rio de Janeiro: Elsevier, 2021.
LEDOUX, J. O cérebro emocional. Rio de
Janeiro: Objetiva, 2014.
MCDOUGALL, J. Teatros do corpo: o psicossoma em
psicanálise. São Paulo: Martins Fontes, 1991.
SAPOLSKY, R. M. Por que as zebras não têm
úlceras? São Paulo: Saraiva, 2004.
Nota Ética e Autoral – CMP Palácio | Point da
Psicanálise
Texto elaborado e adaptado pela Profª Dra. Cléo Palácio com base em obras
clássicas da Psicanálise, Neurociência e Ciências Humanas, de domínio
acadêmico. Conteúdo de finalidade educacional, científica e cultural, conforme
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