Point da
Psicanálise – por Profª Dra. Cléo Palácio
Um espaço
de pausa, reflexão e reencontro consigo. Aqui, a Psicanálise &
Neurociências ganha voz viva, coração pulsante e linguagem acessível. Este é o
Point da Psicanálise, o lugar onde teoria e experiência se encontram, e o saber
científico se torna também encontro humano. Texto adaptado e comentado por
Profª Dra. Cléo Palácio – CMP Palácio Desenvolvimento Humano, Educacional e
Profissional.
AUTISMO, PSICANÁLISE E
NEUROCIÊNCIA: QUANDO O INCONSCIENTE FALA SEM PALAVRAS
Uma
leitura psicanalítica e neurocientífica sobre escuta, linguagem, corpo e
singularidade no autismo*
Quando
se fala em psicanálise, uma ideia costuma surgir quase automaticamente: a de
que o sujeito fala e o analista escuta. A associação entre psicanálise e fala é
tão forte que, diante do autismo, muitas pessoas se perguntam, de forma
legítima, como essa escuta seria possível. Se o inconsciente se manifesta pela
fala, como trabalhar com sujeitos que não falam, falam pouco ou se expressam de
modos não verbais?
Essa
pergunta não revela ignorância. Revela cuidado. E ela exige uma resposta que
não simplifique nem a psicanálise, nem o autismo.
A
verdade é que o inconsciente nunca falou apenas pela palavra. Ele sempre falou
também pelo corpo, pelo gesto, pelo silêncio, pela repetição e pela forma
singular de estar no mundo. No autismo, isso não muda. O que muda é a forma de
escutar.
O
autismo sob a lente da neurociência: diferenças de organização cerebral
A
neurociência contemporânea compreende o autismo como uma condição do
neurodesenvolvimento marcada por modos singulares de organização cerebral.
Estudos apontam diferenças na conectividade neural, especialmente em circuitos
relacionados à integração sensorial, linguagem, emoção e previsibilidade
ambiental.
Autores
como Eric Kandel demonstram que o cérebro se constrói a partir da experiência e
da plasticidade neural. Isso significa que diferenças neurobiológicas não
indicam ausência de desenvolvimento psíquico, mas trajetórias distintas de
construção do funcionamento cerebral.
No
autismo, estímulos sensoriais, sons, luzes, toques, movimentos, podem ser
percebidos de forma amplificada. Essa sobrecarga sensorial impacta diretamente
a comunicação, o comportamento e a autorregulação emocional. Em muitos casos, o
silêncio, a repetição ou o isolamento não são recusa do outro, mas estratégias
de organização interna.
A
neurociência afetiva reforça que emoção, corpo e cognição formam um sistema
integrado. António Damásio demonstra que não existe pensamento sem emoção. No
autismo, a emoção existe, mas pode ser processada e expressa por caminhos
diferentes dos esperados socialmente.
A
psicanálise afirma: há sujeito, há inconsciente, há linguagem
A
psicanálise nunca trabalhou com a ideia de que o sujeito só existe quando fala.
Desde Freud, o inconsciente se manifesta por múltiplas vias: sintomas, atos,
repetições, silêncios e marcas corporais.
Sigmund
Freudafirmava que aquilo que não é elaborado tende a se repetir. No autismo, a
repetição, tão frequentemente observada, não deve ser vista apenas como
comportamento a ser eliminado, mas como tentativa de estabilização psíquica
diante de um mundo vivido como excessivo ou imprevisível.
A
psicanálise contemporânea sustenta que o autista não é um sujeito “sem
inconsciente”, mas um sujeito cuja relação com a linguagem simbólica pode ser
mais custosa, mais lenta ou organizada por outras vias.
“Se
não há fala, como o analista escuta?”
Aqui
está o ponto central da questão.
O
inconsciente não fala apenas pela palavra.
No
autismo, o inconsciente pode se manifestar:
• pelo
corpo
• pelo
ritmo
• pelo
gesto
• pelo
silêncio
• pela
repetição
• pela
organização do espaço
• pela
recusa ou pelo excesso
O
que muda não é a existência do inconsciente, mas o modo de escuta do analista.
A
clínica psicanalítica com sujeitos autistas exige uma escuta ampliada, menos
centrada na interpretação simbólica clássica e mais atenta ao tempo, ao corpo e
ao ambiente.
O
papel do analista: presença antes da interpretação
Donald
Winnicott é fundamental nesse ponto. Ele mostrou que, antes da fala, existe o
cuidado, o manejo e o ambiente. Em muitos casos, o trabalho clínico não começa
com interpretações, mas com a sustentação de um espaço suficientemente seguro
para que o sujeito possa existir sem ser invadido.
Na
clínica com autistas, interpretações diretas e excessivas podem ser vividas
como intrusivas. Por isso, o analista não força a fala, não exige simbolização
imediata e não busca “normalizar” o sujeito. Ele sustenta o vínculo.
O
setting fala. A presença fala. O respeito ao tempo do sujeito fala.
Lacan
e a linguagem para além da palavra
Jacques
Lacan afirmava que o sujeito é efeito da linguagem. Mas linguagem, para Lacan,
não se reduz à fala articulada. Ela inclui marcas, inscrições corporais e modos
de laço com o Outro.
No
autismo, muitas vezes, o sujeito está menos capturado pelo simbólico
tradicional e mais exposto ao real sensorial. O trabalho clínico não é forçar a
entrada na fala, mas criar condições para que algo da linguagem seja tolerável.
Neurociência
e vínculo: o cérebro se reorganiza na relação
A
neurociência contemporânea confirma aquilo que a clínica já observa há décadas:
experiências de vínculo seguro reorganizam circuitos cerebrais. Daniel Siegel
demonstra que relações previsíveis, respeitosas e reguladoras impactam diretamente
a integração neural.
Isso
significa que a escuta, mesmo sem palavras, tem efeito real no cérebro. O
vínculo não é apenas simbólico. Ele é neurobiológico.
Para
além da normalização: ética do cuidado
Psicanálise
e neurociência se encontram em um ponto essencial: o reconhecimento da
singularidade. Compreender o autismo não é tentar eliminar diferenças, mas
criar condições para que o sujeito se desenvolva dentro de suas possibilidades.
Não
se trata de fazer o autista falar como o outro, sentir como o outro ou viver
como o outro. Trata-se de escutar como ele pode falar.
Quando
o inconsciente fala sem palavras
No
autismo, o inconsciente não está ausente. Ele fala de outro lugar. Exige uma
escuta menos apressada, menos interpretativa e mais ética.
Escutar
um sujeito autista é escutar o corpo, o gesto, o silêncio e o tempo. É
sustentar a presença sem exigir tradução imediata. É reconhecer que há sujeito,
há desejo e há história, mesmo quando não há palavra.
Referências
bibliográficas:
DAMÁSIO,
António. O erro de Descartes. São Paulo: Companhia das Letras, 1996.
FREUD,
Sigmund. Além do princípio do prazer. Rio de Janeiro: Imago, 1996.
KANDEL,
Eric. In Search of Memory. New York: W. W. Norton, 2006.
LACAN,
Jacques. Escritos. Rio de Janeiro: Zahar, 1998.
SIEGEL,
Daniel. The Developing Mind. New York: Guilford Press, 2012.
WINNICOTT,
Donald. O brincar e a realidade. Rio de Janeiro: Imago, 1975.
Nota Ética e
Autoral — CMP Palácio | Point da Psicanálise
Conteúdo
elaborado pela Profª Dra. Cléo Palácio, com base em referenciais científicos da
Psicanálise e da Neurociência. Texto de finalidade educativa e cultural,
conforme a Lei nº 9.610/1998 (Direitos Autorais) e a Lei nº 13.709/2018 (LGPD).
Reprodução parcial permitida mediante citação da fonte e autoria.