Point da Psicanálise – por Profª Dra. Cléo Palácio

 

Um espaço de pausa, reflexão e reencontro consigo. Aqui, a Psicanálise & Neurociências ganha voz viva, coração pulsante e linguagem acessível. Este é o Point da Psicanálise, o lugar onde teoria e experiência se encontram, e o saber científico se torna também encontro humano. Texto adaptado e comentado por Profª Dra. Cléo Palácio – CMP Palácio Desenvolvimento Humano, Educacional e Profissional.

 

NEUROCIÊNCIA DA APRENDIZAGEM: ATENÇÃO, FOCO E MEMÓRIA NOS ESTUDOS. COMO O CÉREBRO APRENDE: DICAS DA NEUROCIÊNCIA PARA ESTUDAR MELHOR

 

Introdução

 

Muitas pessoas estudam com dedicação, passam horas em frente aos livros, fazem anotações e repetem conteúdos, mas ainda assim sentem que não aprendem de verdade. Essa frustração não acontece por falta de esforço, mas, na maioria das vezes, por desconhecimento de como o cérebro aprende. A neurociência da aprendizagem ajuda a compreender que aprender não é apenas receber informação, mas envolver processos biológicos, emocionais e cognitivos que precisam estar organizados.

O cérebro humano não foi feito para absorver grandes volumes de informação de forma contínua e mecânica. Ele aprende por associação, significado, repetição consciente e vínculo emocional com o conteúdo. Quando esses elementos não estão presentes, o estudo se torna cansativo, improdutivo e gerador de ansiedade.

A atenção, o foco e a memória são funções cerebrais interligadas. Quando uma delas está comprometida, o aprendizado também é afetado. A neurociência mostra que não basta querer aprender; é necessário criar condições internas e externas para que o cérebro funcione de forma adequada durante o estudo.

Outro ponto fundamental é que o cérebro aprende melhor quando se sente seguro. Estresse excessivo, cobranças internas rígidas e medo de errar ativam áreas cerebrais ligadas à sobrevivência, reduzindo a capacidade de atenção e de memorização. Por isso, estudar sob pressão constante costuma gerar bloqueios.

Além disso, aprender é um processo ativo. O cérebro não aprende bem quando apenas lê passivamente. Ele precisa ser estimulado por diferentes canais sensoriais, como a escrita, a fala, a escuta e a organização do pensamento. Quanto mais áreas cerebrais são ativadas, maior é a chance de retenção do conteúdo.

Neste texto, serão apresentadas dicas práticas baseadas na neurociência da aprendizagem, dialogando com a psicanálise e a educação, para ajudar estudantes a compreender como o cérebro aprende e como utilizar esse conhecimento para estudar melhor, com mais foco, menos cansaço e maior retenção de memória.

 

Atenção e foco: como o cérebro se organiza para aprender

 

A atenção é a porta de entrada do aprendizado. Sem atenção, o cérebro não registra a informação de forma eficiente. A neurociência demonstra que a atenção não é infinita; ela funciona em ciclos e precisa de pausas para se manter ativa. Estudar por longos períodos sem interrupção tende a reduzir drasticamente a capacidade de concentração.

O foco está relacionado à capacidade do cérebro de manter a atenção em uma tarefa específica, ignorando estímulos irrelevantes. Ambientes muito ruidosos, uso constante de celular e multitarefas fragmentam o foco e dificultam a aprendizagem. O cérebro não foi feito para executar várias tarefas cognitivas complexas ao mesmo tempo.

Uma estratégia eficaz é dividir o estudo em blocos de tempo menores, com pausas programadas. Esse método respeita o funcionamento natural do cérebro e evita a sobrecarga cognitiva. Durante as pausas, o cérebro reorganiza as informações recebidas, facilitando a consolidação da memória.

Outro aspecto importante é o estado emocional durante o estudo. Emoções negativas intensas, como ansiedade e medo, competem com a atenção. Quando o cérebro está emocionalmente desregulado, a atenção se dispersa com facilidade. Por isso, criar um ambiente de estudo acolhedor e sem pressão excessiva favorece o foco.

A neurociência também aponta que a atenção é influenciada pela motivação. Quando o conteúdo faz sentido para o estudante, o cérebro libera neurotransmissores associados ao prazer e ao interesse, como a dopamina, aumentando o foco e o engajamento.

 

Memória e aprendizagem: como o cérebro fixa o conteúdo

 

A memória não funciona como um gravador. O cérebro seleciona o que será armazenado com base em critérios como relevância, repetição e significado emocional. Informações consideradas irrelevantes ou desconectadas da realidade tendem a ser esquecidas rapidamente.

 

Existem diferentes tipos de memória, e a aprendizagem depende principalmente da memória de trabalho e da memória de longo prazo. A memória de trabalho é limitada e facilmente sobrecarregada. Quando há excesso de informações ao mesmo tempo, o cérebro não consegue processar tudo de forma eficiente.

Para que uma informação seja transferida para a memória de longo prazo, ela precisa ser trabalhada ativamente. Escrever, explicar com as próprias palavras e relacionar o conteúdo com experiências pessoais são estratégias que favorecem essa consolidação.

Ler em voz alta é outra técnica poderosa. Ao ler em voz alta, o cérebro ativa áreas relacionadas à linguagem, audição e atenção, criando múltiplas rotas de acesso à informação. Isso aumenta significativamente a chance de retenção do conteúdo.

A repetição também é importante, mas precisa ser consciente. Repetir mecanicamente não garante aprendizado. A neurociência indica que revisões espaçadas, ao longo do tempo, são mais eficazes do que repetir o conteúdo várias vezes no mesmo dia.

 

Escrita, cores e estímulos visuais no estudo

 

A escrita manual é uma das formas mais eficazes de aprendizagem. Escrever ativa áreas cerebrais relacionadas à coordenação motora, ao planejamento e à memória, ajudando o cérebro a organizar o pensamento. Diferentemente da digitação, a escrita manual exige mais envolvimento cognitivo.

O uso de cores também pode auxiliar no processo de aprendizagem. A cor verde, por exemplo, está associada ao equilíbrio visual, à atenção sustentada e à redução da fadiga ocular. Escrever com caneta verde pode ajudar o cérebro a manter o foco por mais tempo, favorecendo a fixação do conteúdo.

É importante destacar que a cor não faz milagres, mas atua como um facilitador. Quando combinada com boas estratégias de estudo, ela contribui para um ambiente cognitivo mais organizado e menos cansativo.

Mapas mentais, esquemas e destaques visuais ajudam o cérebro a organizar informações complexas. O cérebro aprende melhor quando consegue visualizar relações entre os conceitos, em vez de lidar apenas com textos longos e lineares.

 

Emoção, sentido e aprendizagem

 

A neurociência e a psicanálise convergem ao afirmar que não existe aprendizagem sem afeto. O cérebro aprende melhor aquilo que tem sentido emocional. Quando o estudante se identifica com o conteúdo ou percebe sua utilidade, a aprendizagem se torna mais eficiente.

Experiências emocionais positivas durante o estudo favorecem a liberação de neurotransmissores que fortalecem a memória. Por outro lado, estudar sob constante medo de errar ou sob cobrança excessiva pode bloquear o aprendizado.

O erro faz parte do processo de aprendizagem. Quando o erro é tratado como oportunidade de reflexão, o cérebro ajusta suas redes neurais e aprende com mais profundidade. Ambientes educativos que acolhem o erro tendem a favorecer o desenvolvimento cognitivo.

 

Considerações finais

 

Compreender como o cérebro aprende é fundamental para transformar a relação com os estudos. A neurociência da aprendizagem mostra que estudar melhor não significa estudar mais, mas estudar de forma alinhada ao funcionamento cerebral.

A atenção, o foco e a memória não são dons fixos; são habilidades que podem ser desenvolvidas com estratégias adequadas. Pequenas mudanças na forma de estudar podem gerar grandes impactos no aprendizado.

Ao respeitar os limites do cérebro, utilizar múltiplos canais de aprendizagem e considerar o papel das emoções, o estudante constrói um processo de estudo mais saudável, eficiente e significativo.

 

Referências bibliográficas

 

DAMÁSIO, Antonio. O erro de Descartes: emoção, razão e o cérebro humano. São Paulo: Companhia das Letras, 2012.

KANDEL, Eric R. Em busca da memória: o nascimento de uma nova ciência da mente. São Paulo: Companhia das Letras, 2009.

IZQUIERDO, Iván. Memória. Porto Alegre: Artmed, 2018.

COSENZA, Ramon; GUERRA, Leonor. Neurociência e educação: como o cérebro aprende. Porto Alegre: Artmed, 2011.

GOLLEMAN, Daniel. Foco: a atenção e seu papel fundamental para o sucesso. Rio de Janeiro: Objetiva, 2014.

MORIN, Edgar. A cabeça bem-feita: repensar a reforma, reformar o pensamento. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2011.

 

Nota Ética e Autoral — CMP Palácio | Point da Psicanálise

 

Conteúdo elaborado pela Profª Dra. Cléo Palácio, com base em referenciais científicos da Psicanálise e da Neurociência. Texto de finalidade educativa e cultural, conforme a Lei nº 9.610/1998 (Direitos Autorais) e a Lei nº 13.709/2018 (LGPD). Reprodução parcial permitida mediante citação da fonte e autoria.