Point da
Psicanálise – por Profª Dra. Cléo Palácio
Um espaço de pausa,
reflexão e reencontro consigo. Aqui, a Psicanálise & Neurociências ganha
voz viva, coração pulsante e linguagem acessível. Este é o Point da
Psicanálise, o lugar onde teoria e experiência se encontram, e o saber
científico se torna também encontro humano. Texto adaptado e comentado por
Profª Dra. Cléo Palácio – CMP Palácio Desenvolvimento Humano, Educacional e
Profissional.
QUANDO O ISOLAMENTO SE PROLONGA:
RUMINAÇÃO MENTAL, EXAUSTÃO PSÍQUICA E O PAPEL DO MOVIMENTO NA REGULAÇÃO DO
CÉREBRO
Uma
leitura psicanalítica e neurocientífica sobre repetição, corpo e reorganização
emocional
Ficar dentro de casa por longos
períodos não é, em si, um problema. Em muitos momentos, o recolhimento funciona
como pausa necessária, proteção contra o excesso de estímulos e tentativa
legítima de reorganização interna. No entanto, quando esse isolamento se
prolonga, algo começa a se transformar silenciosamente no funcionamento
psíquico e cerebral do sujeito.
Aos poucos, a vontade de sair
diminui. O corpo parece mais pesado. A mente se torna mais lenta e repetitiva.
Pensamentos negativos surgem com maior frequência, e o mundo externo passa a
ser percebido como distante, cansativo ou excessivamente exigente. O sujeito
costuma dizer a si mesmo que está descansando, mas, na prática, encontra-se em
um processo gradual de desligamento da vida.
Esse fenômeno não se explica por
falta de força de vontade. Ele envolve mecanismos profundos da psicanálise e da
neurociência.
Do ponto de vista neurobiológico,
o cérebro humano não funciona de maneira neutra diante da imobilidade
prolongada. O isolamento reduz a estimulação sensorial, empobrece o repertório
de experiências e favorece estados de baixa ativação motivacional. Do ponto de
vista psicanalítico, esse afastamento do mundo externo favorece o retorno
excessivo da mente sobre si mesma.
O resultado é a intensificação da
ruminação mental.
A
ruminação como repetição psíquica
Na psicanálise, a repetição ocupa
um lugar central. Aquilo que não é simbolizado, elaborado ou colocado em
circulação tende a retornar de forma insistente. Sigmund Freud descreveu
que, quando a energia psíquica deixa de investir na realidade externa, ela
retorna aos conteúdos internos, muitas vezes sob a forma de pensamentos
repetitivos, autocentrados e desgastantes.
A ruminação não é um pensamento
produtivo. Ela não conduz à solução. Ela gira em torno do mesmo ponto,
reforçando angústias, culpas, frustrações e antecipações ansiosas. O tempo
psíquico fica suspenso: o sujeito permanece preso ao passado ou ao futuro,
enquanto o presente se esvazia.
Esse movimento é intensificado
pelo isolamento. Sem novos estímulos, o cérebro passa a reciclar os mesmos
conteúdos mentais, fortalecendo circuitos de repetição.
O cérebro
em inatividade e a exaustão emocional
A neurociência contemporânea
demonstra que o cérebro se organiza a partir da interação com o ambiente.
Movimento, variação sensorial, luz natural e contato com o espaço externo são
elementos fundamentais para a regulação emocional.
António Damásio
demonstra que emoção, pensamento e corpo formam um sistema integrado. O cérebro
não funciona isolado do corpo. Quando o corpo permanece em inatividade por longos
períodos, ocorre redução na liberação de neurotransmissores associados à
motivação e ao bem-estar, enquanto aumenta a sensação de fadiga mental.
Além disso, a ausência de luz
solar interfere no ritmo circadiano, impactando sono, humor e clareza cognitiva.
O cérebro entra em um estado de economia de energia, que se manifesta como
apatia, lentidão e sensação constante de peso interno.
Não se trata apenas de cansaço.
Trata-se de exaustão psíquica.
Isolamento
como falsa proteção
Na clínica, é comum que o sujeito
afirme: “Vou sair quando me sentir melhor.”
“Agora não tenho energia para isso.”
O problema é que o cérebro não
recupera energia emocional esperando. Pelo contrário: quanto mais tempo o
isolamento se mantém, mais ameaçador o mundo externo passa a parecer.
Carl Jung apontava
que a psique necessita do contato com o mundo para acessar fontes de sentido e
vitalidade. Quando esse contato é interrompido, o isolamento deixa de ser
proteção e passa a funcionar como aprisionamento psíquico.
A
neurociência é clara: a ação precede a motivação
Um dos equívocos mais comuns no
sofrimento psíquico é acreditar que primeiro é preciso sentir-se bem para agir.
A neurociência mostra o oposto: o cérebro se reorganiza a partir da ação.
Movimentos simples, como caminhar
alguns minutos, sentir o sol no rosto, ouvir sons externos, ativam circuitos
cerebrais ligados à regulação emocional. Não se trata de exercícios físicos
intensos, nem de mudanças radicais. Trata-se de romper a imobilidade.
Esses pequenos gestos sinalizam ao
cérebro que não há ameaça iminente. Aos poucos, a produção neuroquímica se
reorganiza, e o estado interno começa a mudar.
O gesto
como início da reorganização psíquica
Do ponto de vista psicanalítico,
sair de casa não é apenas um ato comportamental. É um gesto simbólico. É o
sujeito se recolocando em relação com o mundo, rompendo o fechamento excessivo
da mente sobre si mesma.
A cura, nesses casos, não começa
com grandes decisões. Ela começa com pequenos movimentos. Um passo imperfeito.
Um sair sem vontade. Um contato breve com o mundo real.
O corpo em movimento ajuda a
mente a sair do circuito da repetição.
Não é
sobre se sentir melhor antes. É sobre começar.
A neurociência não promete
controle absoluto da mente. A psicanálise não promete ausência de conflitos.
Ambas, no entanto, mostram que o sujeito não é completamente refém de seus
estados internos.
O isolamento prolongado pesa. O
movimento, mesmo discreto, reorganiza.
Às vezes, cuidar da saúde
psíquica não é parar mais. É voltar a circular.
Referências
DAMÁSIO, António. O erro de Descartes. São
Paulo: Companhia das Letras, 1996.
FREUD, Sigmund. Além do princípio do prazer.
Rio de Janeiro: Imago, 1996.
JUNG, Carl Gustav. O homem e seus símbolos. Rio de Janeiro: Nova
Fronteira, 2008.
SAPOLSKY, Robert. Behave: The Biology of Humans at Our Best and Worst.
New York: Penguin, 2017.
VAN DER KOLK, Bessel. The Body Keeps the Score.
New York: Viking, 2014.
Nota
Ética e Autoral — CMP Palácio | Point da Psicanálise
Conteúdo elaborado pela Profª
Dra. Cléo Palácio, com base em referenciais científicos da Psicanálise e da
Neurociência. Texto de finalidade educativa e cultural, conforme a Lei nº
9.610/1998 (Direitos Autorais) e a Lei nº 13.709/2018 (LGPD). Reprodução
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