Point da Psicanálise – por Profª Dra. Cléo Palácio
Um espaço de pausa, reflexão e reencontro consigo. Aqui, a Psicanálise
& Neurociências ganha voz viva, coração pulsante e linguagem acessível.
Este é o Point da Psicanálise, o lugar onde teoria e experiência se encontram,
e o saber científico se torna também encontro humano. Texto adaptado e
comentado por Profª Dra. Cléo Palácio – CMP Palácio Desenvolvimento Humano,
Educacional e Profissional.
POR QUE A
NOSSA MENTE INSISTE TANTO NO NEGATIVO?
Vivemos em uma época em que,
aparentemente, tudo deveria facilitar a vida emocional. Há mais informação,
mais acesso ao conhecimento, mais possibilidades. Ainda assim, uma pergunta
insiste em aparecer silenciosamente dentro de muitas pessoas: por que, mesmo
quando tudo parece estar bem, a mente continua puxando para o negativo?
Essa não é uma falha pessoal. Não
é falta de fé. Não é fraqueza. É funcionamento cerebral. E entender isso muda
tudo.
O cérebro não foi feito para te
fazer feliz
A primeira verdade, muitas vezes
desconfortável, é que o cérebro humano não foi projetado para a felicidade,
mas sim para a sobrevivência.
De acordo com Rick Hanson, autor
da obra Hardwiring Happiness (2013), o cérebro humano possui um viés
de negatividade (negativity bias), ou seja, ele é naturalmente mais
sensível a experiências negativas do que positivas.
Isso acontece porque, ao longo da
evolução, lembrar de perigos aumentava as chances de sobrevivência. Quem
esquecia rápido uma ameaça, morria. Quem lembrava, sobrevivia.
Ou seja: O cérebro aprendeu a dar
mais atenção ao que dói, ao que ameaça, ao que pode dar errado.
A amígdala cerebral: o alarme
sempre ligado
Dentro do sistema límbico, existe
uma estrutura chamada amígdala cerebral, responsável por detectar ameaças e
ativar respostas emocionais intensas.
O neurocientista Joseph LeDoux,
em sua obra The Emotional Brain (1996), explica que a amígdala reage antes
mesmo do pensamento consciente, disparando respostas emocionais rápidas,
especialmente medo e ansiedade.
Isso significa que:
·
A emoção negativa chega primeiro
·
O pensamento vem depois tentando entender
Por isso, muitas vezes a pessoa
sente algo ruim sem saber exatamente por quê.
Memórias negativas são mais
fortes
Outro ponto importante:
experiências negativas são mais marcantes no cérebro.
Segundo Daniel Kahneman, prêmio
Nobel e autor de Thinking, Fast and Slow (2011), eventos negativos têm
um impacto psicológico muito mais intenso do que eventos positivos
equivalentes.
Um elogio pode até ser esquecido.
Uma crítica pode ficar anos na mente.
Isso acontece porque o cérebro
registra o negativo com mais profundidade, como uma forma de “não esquecer o
perigo”.
Pensamentos negativos se repetem
por proteção
Quando a mente volta
constantemente para pensamentos negativos, ela não está tentando te sabotar.
Ela está tentando te proteger.
O problema é que essa proteção,
quando exagerada, se transforma em:
·
ansiedade
·
ruminação (pensar demais)
·
medo constante
·
sensação de incapacidade
Como explica Robert Sapolsky em Why
Zebras Don’t Get Ulcers (2004), o cérebro humano tem a capacidade de ativar
respostas de estresse mesmo sem perigo real, apenas com pensamentos.
Ou seja: Só de imaginar algo
ruim, o corpo reage como se estivesse acontecendo.
Então… o problema é pensar demais?
Talvez não.
Talvez o problema seja nunca ter
aprendido como a mente funciona. A mente não é contra você. Ela só está
programada para sobreviver, não para te dar paz.
E quando você entende isso, algo
começa a mudar.
Você deixa de lutar contra a
mente… E começa a aprender a conduzi-la.
É possível mudar esse padrão?
Sim. E aqui entra uma das
descobertas mais importantes da neurociência: a neuroplasticidade.
Segundo Eric Kandel, Nobel em
Neurociência, o cérebro é capaz de se reorganizar com base nas experiências e
repetições.
Isso significa que: Quanto mais
você alimenta certos pensamentos, mais fortes eles ficam. Quanto mais você
pratica novas formas de pensar, novos caminhos são criados. Mas isso não
acontece com força… Acontece com consciência e repetição.
Uma reflexão importante
Se a sua mente insiste no
negativo, talvez não seja porque você é fraco.
Talvez seja porque você é humano…
Com um cérebro que aprendeu a sobreviver antes de aprender a viver.
E talvez, pela primeira vez, você
esteja começando a entender isso.
Para fechar…
Talvez o problema não seja que
você pensa demais… Mas que ninguém nunca te explicou por que a sua mente
funciona assim.
E quando você entende isso, você
não se sente mais refém.
Você começa, aos poucos, a
assumir o controle.
REFERÊNCIAS
BIBLIOGRÁFICAS
HANSON,
Rick. Hardwiring Happiness: The New Brain
Science of Contentment, Calm, and Confidence. New York: Harmony Books,
2013.
KAHNEMAN, Daniel. Thinking, Fast and Slow. New York: Farrar, Straus and
Giroux, 2011.
KANDEL, Eric R. In Search of Memory: The Emergence of a New Science of Mind.
New York: W. W. Norton & Company, 2006.
LEDOUX, Joseph. The Emotional Brain: The Mysterious Underpinnings of Emotional
Life. New York: Simon & Schuster, 1996.
SAPOLSKY, Robert M. Why Zebras Don’t Get Ulcers: The Acclaimed Guide to Stress,
Stress-Related Diseases, and Coping. 3. ed. New York: Henry Holt and
Company, 2004.
Nota Ética e Autoral – CMP
Palácio | Point da Psicanálise
Texto inspirado em obras
clássicas e contemporâneas da psicanálise, neurociência e psicologia, com
interpretação autoral de Profª Dra. Cléo Palácio.
O conteúdo possui finalidade
educacional, científica e cultural, em conformidade com a Lei 9.610/98
(Direitos Autorais) e a Lei 13.709/18 (LGPD).
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somente com citação da fonte e autoria:
Profª Dra. Cléo Palácio – CMP Palácio Desenvolvimento Humano, Educacional e
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