Point da Psicanálise – por Profª Dra. Cléo Palácio
Um espaço de pausa, reflexão e
reencontro consigo. Aqui, a Psicanálise & Neurociências ganha voz viva,
coração pulsante e linguagem acessível. Este é o Point da Psicanálise, o lugar
onde teoria e experiência se encontram, e o saber científico se torna também
encontro humano. Texto adaptado e comentado por Profª Dra. Cléo Palácio –
CMP Palácio Desenvolvimento Humano, Educacional e Profissional.
ESQUIZOFRENIA:
QUANDO A REALIDADE SE FRAGMENTA
Uma leitura psicanalítica e
neurocientífica sobre percepção, delírio e cuidado
A esquizofrenia é um transtorno
mental grave e crônico que altera profundamente a forma como o sujeito percebe
a realidade, organiza o pensamento, vivencia as emoções e se relaciona com o
mundo. Trata-se de uma condição que impacta não apenas quem vive o transtorno,
mas também familiares, cuidadores e toda a rede social ao redor do paciente.
Apesar de ainda cercada por estigmas e preconceitos, a esquizofrenia é
amplamente estudada pela psiquiatria, pela neurociência e pela psicanálise, que
hoje oferecem compreensões mais profundas, humanas e integradas sobre esse
sofrimento psíquico.
1. O que é a esquizofrenia?
A esquizofrenia é classificada
como um transtorno psicótico, caracterizado principalmente por uma ruptura na
relação do sujeito com a realidade. Segundo os manuais diagnósticos
contemporâneos e a literatura psiquiátrica, ela envolve alterações em quatro
grandes eixos:
·
percepção da realidade;
·
pensamento e linguagem;
·
afetividade;
·
comportamento.
De acordo com Eugen Bleuler, que
cunhou o termo “esquizofrenia” no início do século XX, o núcleo do transtorno
não está apenas nas alucinações ou delírios, mas na fragmentação do funcionamento
psíquico, especialmente na forma como o sujeito organiza pensamentos,
afetos e vínculos com o mundo.
2. Alucinações: quando o cérebro
cria experiências reais
Um dos sinais mais conhecidos da
esquizofrenia são as alucinações, especialmente as auditivas. A pessoa
pode ouvir vozes que comentam seus atos, fazem críticas, dão ordens ou
conversam entre si, mesmo quando não há ninguém presente. Também podem ocorrer
alucinações visuais, táteis ou sensoriais, como ver imagens inexistentes ou
sentir presenças que não estão ali.
A neurociência mostra que essas
experiências não são “imaginação” ou “invenção”. Estudos conduzidos por Nancy
Andreasen e aprofundados por pesquisas em neuroimagem indicam que, durante as
alucinações, áreas cerebrais relacionadas à audição, linguagem e percepção
estão ativadas como se o estímulo fosse real.
Para o cérebro do paciente, a
experiência é verdadeira, e, muitas vezes, profundamente angustiante.
3. Delírios: quando o sentido da
realidade se rompe
Outro elemento central da
esquizofrenia são os delírios, crenças firmes e persistentes que não
correspondem à realidade compartilhada. A pessoa pode acreditar que está sendo
perseguida, vigiada, controlada por forças externas, ou que possui poderes
especiais ou missões grandiosas.
Segundo Karl Jaspers, os delírios
não são simples erros de julgamento, mas formas alteradas de vivenciar o
mundo, nas quais a realidade perde seu caráter consensual. Mesmo diante de
provas contrárias, o delírio permanece, pois ele está enraizado na experiência
subjetiva do sujeito.
4. Alterações do pensamento, da
fala e do comportamento
A esquizofrenia também compromete
o pensamento e a comunicação. A fala pode se tornar confusa, desorganizada ou
desconexa, com dificuldade de manter uma linha lógica de raciocínio. Esse
fenômeno é conhecido como desagregação do pensamento.
Além disso, comportamentos
considerados estranhos ou inadequados ao contexto podem surgir, assim como
dificuldades para realizar tarefas simples do cotidiano, como higiene pessoal,
organização da rotina e interação social.
Esses sintomas, chamados de sintomas
desorganizados, foram amplamente descritos por Kurt Schneider e seguem
sendo fundamentais para a compreensão clínica do transtorno.
5. A contribuição da
neurociência: o cérebro na esquizofrenia
Do ponto de vista
neurocientífico, a esquizofrenia está associada a alterações no funcionamento
de diferentes redes cerebrais. Pesquisas indicam:
·
desequilíbrios nos sistemas de dopamina e
glutamato;
·
alterações no córtex pré-frontal, responsável pelo
pensamento lógico e organização;
·
comprometimentos na integração entre emoção,
percepção e linguagem.
Autores como Eric Kandel e Oliver
Sacks contribuíram significativamente para demonstrar que transtornos mentais
graves envolvem alterações reais no funcionamento cerebral, sem reduzir
o sujeito apenas ao cérebro.
6. A leitura da psicanálise:
sujeito, linguagem e laço social
A psicanálise oferece uma
compreensão complementar e profundamente humana da esquizofrenia. Para Sigmund
Freud, as psicoses envolvem uma ruptura na relação entre o Eu e a realidade,
diferente do que ocorre nas neuroses.
Já Jacques Lacan compreendeu a
esquizofrenia como uma falha na inscrição simbólica, especialmente na relação
do sujeito com a linguagem e com o laço social. Nesse contexto, as alucinações
e delírios surgem como tentativas do psiquismo de reconstruir um sentido
para uma realidade que se fragmentou.
A psicanálise não nega a
importância do tratamento médico, mas acrescenta algo essencial: a escuta do
sujeito, de sua história e de sua experiência singular.
7. Tratamento, cuidado e
possibilidades de vida
Embora a esquizofrenia não tenha
cura, ela tem tratamento. O acompanhamento psiquiátrico, com uso
adequado de medicamentos antipsicóticos, aliado ao suporte psicológico,
familiar e social, permite que muitas pessoas consigam estabilizar os sintomas,
recuperar autonomia e melhorar significativamente sua qualidade de vida.
O cuidado eficaz envolve:
·
diagnóstico precoce;
·
adesão ao tratamento;
·
acompanhamento psicológico ou psicanalítico;
·
apoio da família;
·
combate ao preconceito e ao isolamento social.
Como ressaltam Donald Winnicott e
outros autores contemporâneos, o acolhimento e a presença de um ambiente
suficientemente estável são fatores decisivos para o tratamento.
Considerações finais
A esquizofrenia não define a
totalidade de uma pessoa. Ela é uma condição complexa, que envolve cérebro,
subjetividade, linguagem e história de vida. Informação de qualidade, olhar
ético e cuidado contínuo são fundamentais para reduzir o sofrimento e promover
dignidade.
Compreender é o primeiro passo
para acolher.
Referências Bibliográficas
ANDREASEN, Nancy. The Broken Brain: The
Biological Revolution in Psychiatry. New York: Harper & Row, 1984.
BLEULER, Eugen. Dementia Praecox or the Group of
Schizophrenias. New York:
International Universities Press, 1950.
FREUD, Sigmund. Neurose, psicose e perversão.
Rio de Janeiro: Imago, 1996.
JASPERS, Karl. Psicopatologia Geral. São
Paulo: Atheneu, 2003.
KANDEL, Eric. Principles of Neural Science.
New York: McGraw-Hill, 2013.
LACAN, Jacques. Escritos. Rio de Janeiro:
Zahar, 1998.
SACKS, Oliver. O homem que confundiu sua mulher
com um chapéu. São Paulo: Companhia das Letras, 2015.
SCHNEIDER, Kurt. Clinical Psychopathology.
New York: Grune & Stratton, 1959.
WINNICOTT, Donald W. O brincar e a realidade.
Rio de Janeiro: Imago, 1975.
Nota Ética e Autoral – CMP
Palácio | Point da Psicanálise
Texto elaborado e adaptado pela Profª
Dra. Cléo Palácio, com base em fontes teóricas clássicas da Psicanálise,
Neurociência e Psiquiatria, de domínio público e acadêmico. Finalidade
educacional, científica e cultural, conforme a Lei 9.610/98 (Direitos Autorais)
e a Lei 13.709/18 (LGPD). Reprodução parcial permitida mediante citação da
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