Point da Psicanálise – por Profª Dra. Cléo Palácio
Um espaço de pausa, reflexão e reencontro consigo. Aqui, a Psicanálise
& Neurociências ganha voz viva, coração pulsante e linguagem acessível.
Este é o Point da Psicanálise, o lugar onde teoria e experiência se encontram,
e o saber científico se torna também encontro humano. Texto adaptado e
comentado por Profª Dra. Cléo Palácio CMP Palácio Desenvolvimento Humano,
Educacional e Profissional.
FORÇA
DE VONTADE NÃO BASTA: POR QUE OS HÁBITOS SUSTENTAM AS MUDANÇAS QUE DESEJAMOS?
Uma
leitura entre Neurociência e Psicanálise sobre repetição, desejo e
transformação humana
Todos
nós já vivemos uma experiência semelhante. Em algum momento, decidimos mudar:
começar uma atividade física, estudar mais, ler diariamente, alimentar-se
melhor ou desenvolver uma nova habilidade. Nos primeiros dias, a motivação
parece suficiente. Há entusiasmo, energia e boas intenções. Contudo, com o
passar do tempo, a disposição diminui, surgem distrações, cansaço e
imprevistos, e aquilo que parecia uma decisão firme começa a perder força.
A
experiência humana mostra uma realidade frequentemente desconfortável: a
força de vontade, sozinha, raramente é suficiente para sustentar mudanças
duradouras.
Isso
não significa que a força de vontade seja inútil. Ela é importante. Muitas
mudanças começam justamente a partir de uma decisão consciente. Entretanto, a
ciência tem mostrado que mudanças consistentes dependem de algo mais profundo:
a construção de hábitos.
A
Neurociência e a Psicanálise, cada uma a seu modo, ajudam a compreender por que
o hábito possui tamanho poder sobre a vida humana.
O
cérebro busca eficiência: por que os hábitos existem?
O
cérebro humano é um órgão extraordinariamente sofisticado, mas também
profundamente econômico. Seu funcionamento exige enorme consumo de energia. Por
essa razão, ele procura constantemente criar atalhos que reduzam esforço e
automatizem comportamentos repetidos.
O
neurocientista Eric Kandel, prêmio Nobel de Medicina e autor de In
Search of Memory, demonstrou que experiências repetidas modificam
fisicamente as conexões entre os neurônios. Cada repetição fortalece
determinadas vias neurais, tornando um comportamento cada vez mais automático.
Em
outras palavras, o cérebro aprende pela repetição.
Aquilo
que inicialmente exige atenção, esforço e autocontrole pode, com a prática
consistente, transformar-se em um padrão mais estável e menos dependente de
energia mental.
Por
isso, estudar diariamente, praticar exercícios ou desenvolver novas
competências torna-se mais fácil quando essas ações deixam de depender
exclusivamente da motivação e passam a integrar a rotina como hábitos
consolidados.
O
limite da força de vontade
A
ideia de que basta “querer muito” para mudar a vida tem sido amplamente
difundida. No entanto, a Neurociência mostra que a força de vontade é um
recurso limitado.
António
Damásio, em O
erro de Descartes, demonstra que decisões humanas não são produzidas apenas
pela razão. Emoções, estados corporais, experiências passadas e contextos
ambientais influenciam continuamente a capacidade de escolha.
Isso
significa que uma pessoa pode desejar profundamente mudar determinado
comportamento e, ainda assim, encontrar dificuldades para sustentá-lo.
Cansaço,
estresse, frustrações e sobrecarga emocional diminuem a capacidade de
autorregulação. Quando toda mudança depende exclusivamente de esforço
consciente, o cérebro tende a retornar aos padrões já conhecidos.
É
justamente nesse ponto que o hábito se torna um aliado poderoso.
O
hábito reduz a carga mental
Quando
um comportamento se torna habitual, o cérebro deixa de precisar tomar a mesma
decisão repetidas vezes.
A
energia antes gasta em negociações internas, “Faço ou não faço?” , é reduzida.
A
atividade passa a fazer parte da identidade cotidiana.
Estudos
em Neurociência mostram que os hábitos envolvem circuitos ligados ao córtex
pré-frontal e aos gânglios da base, estruturas importantes para aprendizagem e
automatização comportamental.
O
cérebro, então, passa a operar de forma mais eficiente.
Não
é que a tarefa se torne necessariamente mais fácil. O que diminui é o custo
cognitivo para iniciá-la.
A
repetição e a construção do sujeito
Curiosamente,
a Psicanálise também atribui enorme importância à repetição.
Sigmund
Freud, em Além
do princípio do prazer, descreve a compulsão à repetição como uma tendência
humana de retornar a determinados padrões emocionais e comportamentais.
Embora
Freud estivesse se referindo principalmente às repetições inconscientes, sua
observação revela um aspecto importante da condição humana: o sujeito se
constitui também por aquilo que repete.
A
repetição não produz apenas comportamentos.
Ela
produz modos de existir.
A
pessoa que estuda todos os dias não está apenas realizando uma atividade. Aos
poucos, está construindo a identidade de alguém comprometido com o aprendizado.
Quem
pratica exercício regularmente não está apenas se movimentando. Está
desenvolvendo uma nova relação consigo mesmo.
Os
hábitos, portanto, participam da construção da própria subjetividade.
O
cérebro é plástico, mas a mudança exige constância
Uma
das maiores descobertas da Neurociência moderna é a neuroplasticidade.
O
cérebro permanece modificável ao longo de toda a vida.
Entretanto,
plasticidade não significa mudança instantânea.
Norman
Doidge, em The
Brain That Changes Itself, demonstra que o cérebro se reorganiza mediante
experiências repetidas e consistentes.
Não
basta realizar uma ação ocasionalmente.
Mudanças
neurais mais estáveis exigem continuidade.
É
justamente por isso que tantas transformações fracassam. Muitas vezes,
deseja-se colher resultados de um processo que ainda não recebeu tempo
suficiente para se consolidar.
A
repetição não é um detalhe do processo de mudança.
Ela
é o próprio mecanismo da mudança.
O
hábito também é uma experiência relacional
A
Psicanálise contemporânea acrescenta uma dimensão ainda mais profunda.
Donald
Winnicott, em O
ambiente e os processos de maturação, mostra que o desenvolvimento humano
ocorre dentro das relações e da experiência ambiental.
Muitos
hábitos não se sustentam apenas pela disciplina individual. Eles também
dependem do contexto em que a pessoa vive.
Ambientes
excessivamente caóticos, sobrecarregados ou emocionalmente desorganizados dificultam
a construção de novas rotinas.
Por
outro lado, ambientes suficientemente estáveis favorecem repetição,
previsibilidade e continuidade.
O
hábito não é apenas um ato interno.
Ele
também é influenciado pelas relações e pelas condições de vida.
O
desejo inicia. O hábito sustenta.
Talvez
uma das maiores ilusões contemporâneas seja acreditar que a mudança acontece
apenas porque alguém deseja muito algo.
O
desejo é importante.
A
motivação é importante.
A
força de vontade também é importante.
Mas
nenhuma delas costuma ser suficiente sozinha.
A
Neurociência mostra que o cérebro aprende pela repetição.
A
Psicanálise mostra que o sujeito se constitui pela experiência repetida e pelos
padrões que organiza ao longo da vida.
Por
isso, mudanças duradouras geralmente acontecem quando uma decisão consciente
deixa de depender exclusivamente da motivação e passa a ser sustentada por
hábitos.
Conclusão
A
força de vontade acende a chama da mudança.
O
hábito mantém essa chama acesa.
O
cérebro humano é plástico, mas precisa de repetição para se reorganizar. O
psiquismo é dinâmico, mas também se estrutura por padrões e repetições.
Talvez
o segredo das transformações mais profundas não esteja em tentar sentir
motivação todos os dias.
Talvez
esteja em compreender que algumas das coisas mais importantes da vida precisam
deixar de depender apenas do querer e começar a fazer parte do modo como
escolhemos viver.
Porque,
em muitos momentos, não é a intensidade da vontade que sustenta a mudança.
É
a constância do hábito.
Referências
bibliográficas
DAMÁSIO,
António. O erro de Descartes: emoção, razão e o cérebro humano. São
Paulo: Companhia das Letras, 1996.
DOIDGE,
Norman. The Brain That Changes Itself: Stories of Personal Triumph from the
Frontiers of Brain Science. New York: Viking, 2007.
FREUD,
Sigmund. Além do princípio do prazer. Rio de Janeiro: Imago, 1996.
KANDEL,
Eric R. In Search of Memory: The Emergence of a New Science of Mind. New
York: W. W. Norton & Company, 2006.
SOLMS,
Mark. The Hidden Spring: A Journey to the Source of Consciousness. New
York: W. W. Norton & Company, 2021.
WINNICOTT,
Donald W. O ambiente e os processos de maturação: estudos sobre a teoria do
desenvolvimento emocional. Porto Alegre: Artmed, 1983.
Nota
Ética e Autoral: CMP Palácio | Point da Psicanálise
Conteúdo
elaborado pela Profª Dra. Cléo Palácio, com base em referenciais
científicos clássicos e contemporâneos da Psicanálise e da Neurociência. Texto
de finalidade educativa e cultural, conforme a Lei nº 9.610/1998 (Direitos Autorais)
e a Lei nº 13.709/2018 (LGPD). Reprodução parcial permitida mediante citação da
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