Point da Psicanálise – por Profª Dra. Cléo Palácio

 

Um espaço de pausa, reflexão e reencontro consigo. Aqui, a Psicanálise & Neurociências ganha voz viva, coração pulsante e linguagem acessível. Este é o Point da Psicanálise, o lugar onde teoria e experiência se encontram, e o saber científico se torna também encontro humano. Texto adaptado e comentado por Profª Dra. Cléo Palácio – CMP Palácio Desenvolvimento Humano, Educacional e Profissional.

 

POR QUE ALGUMAS PESSOAS NÃO CONSEGUEM RECEBER ELOGIOS?

 

Uma leitura psicanalítica e neurocientífica sobre autoestima, autoimagem e reconhecimento

 

Receber um elogio deveria ser algo simples. Alguém reconhece uma qualidade, uma conquista ou um esforço e a reação esperada seria satisfação. No entanto, para muitas pessoas, o elogio provoca desconforto, constrangimento ou até mesmo desconfiança.

Frases como “não foi nada”, “qualquer um faria”, “não ficou tão bom assim” ou “foi só sorte” surgem imediatamente. Em vez de acolher o reconhecimento, o sujeito tenta anulá-lo.

Mas por que algo aparentemente positivo gera incômodo?

A resposta envolve mecanismos complexos que unem memória emocional, funcionamento cerebral, história de vida e construção psíquica. A Neurociência e a Psicanálise oferecem contribuições importantes para compreender esse fenômeno.

 

O cérebro não recebe apenas palavras, recebe significados

 

Quando alguém recebe um elogio, o cérebro não processa apenas a frase escutada. Ele compara essa informação com a imagem que a pessoa construiu de si mesma ao longo da vida.

António Damásio, em O erro de Descartes, demonstra que emoção e razão não operam separadamente. Toda interpretação da realidade passa por experiências emocionais previamente registradas no cérebro.

Isso significa que um elogio não é avaliado apenas pela lógica. Ele é confrontado com memórias, crenças e sentimentos acumulados ao longo dos anos.

Quando a mensagem recebida é compatível com a autoimagem, ela é facilmente aceita. Quando entra em conflito com aquilo que o sujeito acredita sobre si mesmo, surge resistência.

 

A neuroplasticidade e a construção da autoimagem

 

A Neurociência demonstra que o cérebro está em constante transformação.

Eric Kandel, prêmio Nobel de Medicina e autor de In Search of Memory, demonstrou que experiências repetidas modificam fisicamente as conexões neurais. Pensamentos recorrentes, emoções frequentes e experiências repetidas fortalecem circuitos cerebrais específicos.

Se uma criança cresce ouvindo críticas constantes, comparações excessivas ou mensagens de desvalorização, essas experiências tendem a formar redes neurais associadas à insegurança e à autocrítica.

Com o passar do tempo, essas conexões tornam-se familiares ao cérebro. Assim, quando surge um elogio, o sistema nervoso encontra uma informação que não corresponde ao padrão interno já consolidado.

O cérebro não rejeita o elogio porque ele seja falso. Muitas vezes, rejeita porque ele não combina com a identidade construída ao longo da vida.

 

A psicanálise e a formação do sentimento de valor pessoal

 

A Psicanálise amplia essa compreensão ao investigar a formação do Eu.

Sigmund Freud, em O ego e o id, descreve que a personalidade é influenciada por diferentes instâncias psíquicas. Entre elas está o superego, responsável pelos julgamentos internos, pelas exigências e pelas cobranças que o sujeito dirige a si mesmo.

Quando esse sistema interno torna-se excessivamente rígido, a autocrítica passa a dominar a percepção de si mesmo.

Nesses casos, mesmo diante de realizações objetivas, a voz interna continua repetindo:

·                 “Ainda não é suficiente.”

·                 “Você poderia ter feito melhor.”

·                 “Isso não tem tanto valor assim.”

O elogio encontra uma estrutura psíquica preparada para duvidar dele.

 

O cérebro aprende a repetir a autocrítica

 

A repetição é um conceito central tanto para a Neurociência quanto para a Psicanálise.

Freud observou que experiências emocionais não elaboradas tendem a retornar através da compulsão à repetição. Já a Neurociência demonstra que circuitos neurais frequentemente ativados tornam-se mais fortes.

O resultado é um ciclo curioso:

A pessoa se critica.

O cérebro fortalece esse padrão.

A autocrítica torna-se automática.

E qualquer informação positiva passa a ser filtrada com desconfiança.

O sujeito não percebe que está rejeitando o elogio. Ele acredita estar sendo apenas “realista”.

 

O papel das relações precoces

 

Donald Winnicott, em O brincar e a realidade, enfatiza a importância do ambiente emocional nos primeiros anos de vida.

Quando a criança encontra acolhimento, reconhecimento e validação emocional, desenvolve maior confiança em suas próprias experiências internas.

Quando cresce em ambientes excessivamente críticos, imprevisíveis ou emocionalmente indisponíveis, pode desenvolver dificuldade para reconhecer seu próprio valor.

O problema não está apenas na ausência de elogios. Muitas vezes está na ausência de um olhar que confirme a existência emocional daquela criança.

 

Neurociência afetiva e sentimento de reconhecimento

 

A Neurociência contemporânea tem mostrado que reconhecimento e pertencimento possuem profundo impacto cerebral.

Mark Solms, em The Hidden Spring, demonstra que emoções não são elementos secundários da mente. Elas participam diretamente da construção da experiência consciente.

Sentir-se valorizado ativa circuitos relacionados à segurança, vínculo e bem-estar.

Por outro lado, quando o sujeito não consegue internalizar experiências positivas, permanece emocionalmente dependente de validações externas que nunca parecem suficientes.

O reconhecimento chega, mas não encontra lugar para permanecer.

 

O cérebro social e a necessidade de pertencimento

 

Daniel Siegel, em The Developing Mind, destaca que o cérebro humano é profundamente relacional.

A forma como nos percebemos está intimamente ligada às experiências que tivemos com outras pessoas ao longo da vida. A autoestima não nasce apenas da reflexão individual. Ela se desenvolve dentro das relações.

Por isso, a dificuldade em receber elogios frequentemente revela algo maior: uma dificuldade de reconhecer a própria legitimidade como alguém digno de valor, afeto e reconhecimento.

 

Receber um elogio também é um ato de maturidade emocional

 

Muitas pessoas confundem humildade com autodesvalorização.

Humildade não significa negar qualidades.

Humildade significa reconhecer virtudes e limitações sem precisar exagerar nenhuma delas. Aceitar um elogio não é arrogância.

É apenas permitir que uma informação positiva encontre espaço dentro da própria história.

 

Conclusão

 

A dificuldade em receber elogios raramente está relacionada ao elogio em si.

Na maioria das vezes, ela está ligada à forma como o cérebro registrou experiências emocionais e à maneira como o psiquismo organizou a própria identidade.

A Neurociência mostra que crenças repetidas moldam circuitos neurais. A Psicanálise mostra que experiências precoces influenciam profundamente a construção do Eu.

Por isso, quando alguém rejeita um elogio, talvez não esteja rejeitando a pessoa que elogia. Talvez esteja apenas lutando contra uma narrativa interna construída ao longo de muitos anos.

E, às vezes, o início da mudança não acontece quando aprendemos a falar bem de nós mesmos. Acontece quando aprendemos, simplesmente, a acreditar que aquilo de bom que o outro vê também pode ser verdadeiro.

 

Referências bibliográficas

 

DAMÁSIO, António. O erro de Descartes: emoção, razão e o cérebro humano. São Paulo: Companhia das Letras, 1996.

FREUD, Sigmund. O ego e o id. Rio de Janeiro: Imago, 1997.

KANDEL, Eric R. In Search of Memory: The Emergence of a New Science of Mind. New York: W. W. Norton & Company, 2006.

SOLMS, Mark. The Hidden Spring: A Journey to the Source of Consciousness. New York: W. W. Norton & Company, 2021.

SIEGEL, Daniel J. The Developing Mind: How Relationships and the Brain Interact to Shape Who We Are. New York: Guilford Press, 2012.

WINNICOTT, Donald W. O brincar e a realidade. Rio de Janeiro: Imago, 1975.

 

Nota Ética e Autoral — CMP Palácio | Point da Psicanálise

 

Conteúdo elaborado pela Profª Dra. Cléo Palácio, com base em referenciais científicos clássicos e contemporâneos da Psicanálise e da Neurociência. Texto de finalidade educativa e cultural. Reprodução parcial permitida mediante citação da fonte e autoria.